segunda-feira, 2 de outubro de 2017



Engraçado, muito engraçado, parece uma caixinha com várias fitas, com imagens, flashbacks e luzes estranhas.
Cheiros familiares, rostos, e gestos reconhecíveis, consigo até imaginar cenas como se eu fosse o ator principal, e meus olhos as câmeras. 
Consigo ver meus pequenos pés nas pontinhas dos dedos esperando  no frio minha mãe me auxiliar no banho, o shampoo caindo e ardendo em meus olhos, quase um ato somente psicológico pois não tinha ardência era somente a estranheza.

Lembro-me das ruas sem asfaltos, dos meus joelhos ralados, com uma bola suja na mão, no pique esconde atrás dos carros e dos postes, do cheiro de bolo no forno, e da lorota de não pentear o cabelo para deixa-lo enroladinho. 
Das broncas por rasgar mais uma vez o joelho da calça do uniforme, dos tênis unissex que me obrigavam a usar para poder levar as pedrinhas até o caminho da minha casa.
Ah! Os pesadelos, terríveis tenebrosos, mas tinha sempre um canto aonde se proteger, esse canto era chamado de: A cama dos nossos pais. 

Lembro-me quase que remotamente das manhãs de verão, e de riscar os calendários torcendo para chegar o dia de completar mais um ano de vida, sem comemorações, apenas para preencher o canto da parede e anotar minha altura, cada centímetro era sacramentado.
Engraçado, muito engraçado, tudo faz parte de um registro que não terei oportunidade de viver mais, e como doí, como doí saber que você não é mais tão criança para ser a parceira de aventuras com o seu pai, pois nossas rotinas tomam nosso tempo, e a velhice chega até para o capitão mais covarde e corajoso do mundo.

Lembro-me de crescer, de não me importar mais com minhas bonecas e carrinhos, de querer experimentar o novo, de sentir o cheiro do bolo no forno e se atrever a tentar, de não me importar mais com minhas coleções de tazos, de deixa-los lá guardados de um modo especial mas de um modo apenas especial nada além disso.
Da sensação de gostar de alguém, da sensação de ter medo de alguém, da sensação de ter medo do mundo, da primeira vez sozinha em um ônibus, e das recaídas a noite pedindo colo aos meus pais.
Engraçado, muito engraçado, perdemos as fitas cassetes e nossas gravações quando crianças, apenas ficou lembranças, substituirmos por mp3 nossas músicas,  nossas fotos viraram digitais, e minha vó estava aprendendo receitas na internet.

Lembro-me que tudo aconteceu tão rapidamente, que de um certo modo as vezes preciso recorrer ao passado, fechar os olhos, lembrar de nossas viagens em família, lembrar das noites de domingos e das nossas danças, do cheiro da roupa da minha mãe e das vezes que levava uma camiseta dela para dormir fora, só para me sentir em casa, das brincadeiras nas ruas, da terrível adolescência e seus prazeres e conhecimentos, de cada flashback de sorrisos de cada luz estranha da manhã, de cada imagem como um filme amarelado, de conhecer o mundo e as pessoas nele, de entender que não conseguimos nada facilmente.
Engraçado, muito engraçado, tão nova e tão nostálgica,é que cada virgula do tempo é como anotar minha altura na parede é algo sacramentado. 

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