Logo depois do almoço minha mãe chamou para irmos fazer a rematricula no meu colégio, iria cursar a 7° serie, e estava muito empolgada, lembro que naquela época era empolgante voltar as aulas, rever os colegas, contar como foi as férias. Eu ficava imensamente ansiosa para cada dia aparecer melhor, podia ser de aparência, atitude ou estilo.
Todos da direção do colégio já me conheciam, quando diziam Sarah Laranjeira era certo ouvir alguém dizer "aaaah a Sarah.." as vezes essa frase acompanhava um sorriso outras vezes não. Quando sentei tinha um garoto com a mãe dele do meu lado, era cabisbaixa, parecia tímido e tinha algumas manias estranhas com as mãos, suas respostas eram curtas sem muita expressão, parecia que o mundo dele era sem cor. Ouvi a mãe dele dizer que ele estava no 7°B, a mesma turma que eu estava, ele deu um sorriso torto e pediu para ir pra casa.
Meu número era o 27 na lista do espelho, coincidentemente o mesmo dia do meu aniversário então ficava quase no fundo com a bagunça. Lembro de estar virada quando a professora anunciou o aluno novo, era o mesmo garoto da direção ele estava mais tímido e as manias com as mãos eram frenéticas, a professora pediu para que ele sentasse na minha frente, e por onde ele passava todos torciam o nariz.
De imediato chamei ele, seu nome era Miguel, disse um" Oi" bem espontâneo e perguntei sobre sua idade e de onde ele era. Ele respondia tão baixo que para não ser chata eu só sorria como entendido. Percebi que ele não tinha ninguém para ficar no recreio, ele se isolava sob os livros e seus desenhos. Depois de alguns dias observando fui sentar com ele no recreio, começamos a conversar sobre desenhos, ele desenhava muito bem e naquela época eu já gostava de fazer alguns rabiscos, falamos sobre heróis, e lembro de ter falado que era totalmente sem sentido quando o Bruce se transformava em Hulk e a bermuda dele ficava de acordo com o tamanho dele, e ele riu ,sim ele riu jurava que aquele garoto nunca iria rir.
Passamos semanas conversando juntos no recreio, dividimos o lanche e ao mesmo tempo que falava comigo ele desenhava, eram desenhos de pessoas, e sempre era um garoto triste, ou com algum poder que ele gostaria de ter, alguns tinham asas ele dizia que era para voar quando chegasse os problemas, outros tinham telepatia ele falava que era para dar as respostas certas quando perguntarem alguma coisa, e eu dizia que seria útil na aula de matemática . Ele era bom em números também, me ensinou algumas coisas e eu explicava para ele sobre Geografia e Inglês.
E dessa vez não torciam o nariz só quando ele passava, torciam o nariz quando eu passava também, as meninas tiravam sarro da gente, diziam que estávamos namorando ou alguma bobagem dessa, mas na verdade só nos tornamos bons amigos!
Miguel não prestava atenção nas aulas, ele só desenhava e desenhava e cada vez mais seus desenhos ficavam obscuros, confesso ter ficado com receio e exitava em perguntar alguma coisa com medo da resposta, mesmo sendo totalmente despeço da aula, suas notas eram ótimas nas provas.
Logo depois das ferias de Julho, Miguel não apareceu mais e ficou assim até Setembro, algumas pessoas inventavam historias diziam que ele tinha fugido de casa, ou falavam que ele era psicopata que tinha problemas, os meninos judiavam dele, ninguém queria jogar com ele nem ao menos conversar, foi quando notei que ele só tinha a mim.
Era Quarta- Feira, e Miguel apareceu ele sentou e não desenhava mais, não falava apenas ficava parado olhando fixamente para lousa, tentei conversar com ele perguntei se ele estava bem, e nenhuma resposta saia da boca dele, a unica coisa que ele disse foi "não quero conversar Sarah".
Não entendia oque estava acontecendo, ele ficava semanas assim, no recreio se trancava no banheiro e ficava lá até bater o sinal, os meninos tiravam sarro da cara dele, e algumas vezes até o defendi.
Um dia durante o recreio a sala estava aberta e aproveitei para pegar o lanche que tinha esquecido, e o caderno dele estava aberto e tinha uma borda colorida na folha dele, nunca vi nada colorido nos desenhos que ele fazia e fui ver oque era, era um desenho lindo, uma moça gravida e dentro da barriga era cheio de flores e luzes representando uma vida florescendo ali dentro, foi um dos desenhos mais bonitos que vi ele fazer!
Ele me pegou no pulo quando ja estava saindo da sala, então perguntei sobre oque era o desenho, ele negou a me explicar mas eu insisti então ele pediu para matar a aula no patio assim ele poderia contar melhor. Foi quando vi ele chorando pela primeira vez e com a voz tremula ele disse "meu pai morreu", congelei não sabia oque dizer, então abracei e falei com todo coração "eu sinto muito mesmo!"
Ele explicou que seu pai já estava com câncer, em estágio avançado desde o começo do ano, e que mesmo assim o pai e a mãe dele ainda discutiam quase toda noite, a mãe dele sofria de ansiedade e síndrome do panico, e ela ficava assustada com a ideia de ter que criar o Miguel sozinha. Ele disse claramente o transtorno que era viver na sua casa, seus familiares moravam em São Paulo, e era apenas ele e seus pais. Mesmo ele sabendo que a doença só iria se agravar, ele ainda tinha esperança de reverter alguma coisa, mas infelizmente foi tarde.
Então ele olhou para o desenho que fez e disse " Sarah essa é minha mãe, e na barriga está minha irma Luisa, ela vai ser a lembrança mais bonita que vou ter do meu pai, por isso fiz ela como uma flor, porque a unica coisa colorida que tenho agora é ela."
O caminho todo voltei chorando, fiquei triste por lembrar como as pessoas julgavam Miguel e não tinham o menor interesse em saber da vida dele, ele pediu segredo logico que não contei a ninguém, bem não até agora.
Há um mês atrás abri um site de Design de Curitiba, tinha uma foto bem pequena com alguns desenhos minimalistas em preto e branco e do lado tinha um rapaz, olhei olhei e era Miguel! Eu olhei tantas vezes aquela foto que custei a acreditar que era verdade, nunca mais tinha visto ele depois que me mudei, fiquei imensamente feliz e lembrei de todas as pessoas que duvidaram dele e da sua capacidade, o desenho mais visualizado se chamava Luisa, era um desenho simples e delicado. Lembrando dessa historia, hoje ainda é uma lição me faz lembrar que jamais devemos duvidar da capacidade de alguém, e que aquele garoto do desenho, tímido com manias nas mãos hoje honra oque ele mais tem de colorido na sua vida.

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